quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

M...


Você conhece a verdadeira história do flautista de Hamelin?

Todos sabem que a cidade de Hamelin estava infestada de ratos e não havia nada que alguém pudesse fazer contra os roedores que atormentavam os seu habitantes. Então, um músico muito habilidoso, com sua flauta mágica, tocou uma arrebatadora melodia que atraiu os ratos e ele os guiou para um precipício no qual os ratos se atiraram abismo abaixo. O que ninguém diz é que o flautista de Hamelin se sentiu muito satisfeito com seu trabalho e exigiu um pagamento à cidade. Quando se recusaram a pagar ele logo se decidiu: tocou mais uma vez sua bela melodia, dessa vez atraindo todas as crianças pra fora da cidade, e dançavam e riam alegremente. Então, habilidosamente, tocando um sequência específica de notas, ele fez com que as cabeças de todas as crianças explodissem.

Outra história: Davi, antes de toda sua glória de rei, era conhecido por ser um excelente músico. Quando o rei Saul estava atormentado por um espírito mau ele foi chamado para tocar na corte, e dar alívio ao rei. Entretanto ele tocava por dias e dias, horas sem parar, e nunca era suficiente para Saul. Davi lhe dava paz, mas a paz nunca era suficiente, então ele decidiu que só existia um caminho: destruição. Ele tocou uma sequência de notas dissonantes, coisas que ressoavam na alma de Saul, torturando-o, fazendo-o enfrentar o que ele não queria ver. Saul, é claro, ficou furioso, tomou uma lança e atirou em Davi, que teve que fugir pra fora do reino. Se Davi tivesse terminado seu trabalho com Saul, certamente ele estaria livre da sua doença, mas a metamorfose não é pra qualquer um.

Esse definitivamente é o lado mais obscuro e violento da música, mas ela tem um papel de transformação também, de tocar nas pessoas e levá-las à alguma realização ou a uma ação. Esse é o poder transformador da música.

Em sua música Pied Piper, o BTS se aproveita do conceito de uma música que é encantadora e atraente, a pessoa esquece das suas tarefas diárias para seguir essa melodia sem conseguir resistir, e quanto mais forte a ideia de proibido, mais doce é a voz que chama. O eu-lírico se reconhece como perigoso, como o fruto proibido e ele pede desculpas por estar arruinando o ouvinte. Eu deveria perdoar? Depois de passar talvez milhares de horas ouvindo, assistindo, eu deveria perdoar esses ídolos que de maneira egoísta me prenderam com suas músicas?

BTS, TXT, Enhypen, Twice, NCT, Kiss of Life, ILLIT, Les Serafim, ITZY, Stray Kids, &Team, Seventeen, Ateez, The Boyz, iKON, Kang Daniel, JYP, Treasure, VAV, Victon, Newkidd, Blackpink, Loona, dearALICE, tripleS, Babymonster, NewJeans, Kep1er, aespa, IVE, GFRIEND, (G)-idle, fromis_9, Purple Kiss, Everglow, IZ*ONE, Red Velvet, Sunmi, Chung ha… eu deveria perdoar vocês por roubarem minha vida de mim? Tudo pra vocês terem um gosto de fama, de aprovação. Devo perdoar por me falarem pra sonhar irresponsavelmente? Apenas pra no fim eu ser consumido por dor e sangue por todos aqueles cenários impossíveis, olhando pra Lua a noite e pensando que deve ser muito fácil ter o Sol brilhando pra você no outro lado do mundo. Você me amaldiçoou com tanta dor, tanto choro. Devo perdoar?

O pior é que eu devo. Pra qualquer pessoa aliado que não consegue cumprir com as demandas do mundo por causa de um artista do outro lado do globo é porque ele nunca quis se conformar com essas demandas em primeiro lugar. A dor impede a alma de morrer. É contraditório, mas é a única resposta. A paz não é a resposta, a paz é muito branca. A destruição, por mais que imprevisível e agressiva, é uma ferramenta para verdadeira transformação e libertação.

Todos lembram de como o BTS começou lá atrás, aquelas músicas barulhentas, com argumentos e críticas muito claras a um sistema que não se podia mais sustentar. Talvez aquele barulho não tenha sido apenas um desespero para ser visto, mas realmente a expressão de um atributo inerente que existia neles. A música toca em áreas escondidas da psique e representa um desejo de libertação, destruição e renovação e é através da dor, do desejo de destruir e do barulho é que a mudança é alcançada. Esse é o acionar de um estado inato de transformação, um desejo profundo e incompreendido de se diferenciar, guiado pela presença de uma sombra que permite a transcendência pela ruptura, uma sombra que tem seus aspectos sombrios integrados pela música.

Quando damos as costas a tudo isso, encontramos paz. Um alívio da dor que nos atormenta, dos impulsos que nos assustam, dos desejos que nos consomem. Esse silêncio, essa estabilidade, esses estado de permanência… é isso que você quer? É o silêncio que você quer? A sua paz liga pros seus sonhos? A sua paz liga pra quem você é? Como disse o Emicida, em “Ismália encontra a paz”: “A paz que eles almejam sabe o nome de alguma das 30.000 crianças palestinas mortas? A paz chora pelas crianças com uniforme de escola mortas no caminho do colégio no Rio de Janeiro?”

A sua paz… chora pela sua morte? 

O que cabe na sua paz? O que cabe na sua ideia de paz?

sábado, 30 de agosto de 2025

Nunca serei se torna Tanto faz

[Conexão em restaur...mento]
[Closing door 075]

Eu fecho, eu fecho pra você, meu bem. Não se preocupe em se explicar, em pensar, em fazer, frente ou outra alguém lhe pergunta o que acha ou você pergunta como faz e eu te respondo tudo. Você e sua palavra.

Ódio é paz, nascido de frustração, um cancela, o outro, mata. Mas o ódio, se não mata, não cala, mas liberta. De se expressar num ato de rebelião interior, uma dança, uma invenção de assassinato, uma inner explosão. 

O sangue derramado, pode ser meu, pode ser seu. Pode ser de inocentes, pode ser do Inocente. Ou pode ser minha ira, snagrando sobre mundo, dando como água ao povo beber, a ira a um mundo que não vê calor.

A mão estendida que mordemos, que afaga e que bate, não é do nosso Senhor, mas ele a deixa ali, para acender uma centelha, para uma rebelião certeira, que no silêncio faz o forte, quieto de si, certo de fronte, inabalável. Não é necessário morder a mão apenas suportá-la until they wither, pelo seu amor.

Se passar isso, quer passe aquilo, tanto faz. Whatever é o adulto da criança que nunca iria. Nunca iria ser capaz de te olhar e te achar, encontrar alegria, ardor. Que fugia de ver o mundo, de apreciar o momento, nunca iria estar presente. Will never não tem amor, Whatever é amor. Quer cuspam quer escarneçam, a pedra que salva a pedra que condena.

Nem pedra para ser pisada, nem pedra para ser glorificada, apenas aqui aponta: aqui a sua miséria. Se você me odeia é porque vê você em mim, se você procede mal minha falta de resposta é o silêncio que te acusa.

Enfim o filho do acusador. Apenas branco, apenas ondas que vão e que vem, tudo passando com tranquilidade mas rebelião, sem paz ou sem ódio, grito pra dentro e você responde. Meu silêncio, minha resistência, é minha palavra que em ti dói

e corta. Morte para mim, morte pra você e morte pra mim. It is used and then cast away. With no friends, no ends, nothing to surrender from. All that because God lives alone.

To listen is to kill and to kill is to build a foundation. I silenced you, I spoke, I dared, I broke, family you become. But if you ignore, let me breathe, no words or so to speak, aí você deixa cair seu sangue, pra um mundo de mudança, de âmbar, sem mim que foi jogado fora, Whatever matches my sweetest forever.

Seja isso, seja aquilo, but it's whatever. Quero isto, quero aquilo, but it's whatever. I bring out, I question the silence and my own word. With it I find freedom of futile desire, a monk in the city, mercy is my killing.

[Closing down door 075]

Do you still wish to seal the door?

quarta-feira, 7 de maio de 2025

white out.

 [Porta 075]


White Out. A white that is worse than Neverland. No thoughts, no feelings, no noise. No will, no path, no condition.

Jesus, como eu queria achar a chave dessa porta pra trancar ela pra sempre. Pra dar meu sangue pros cães lamberem, pra torcer um pano num ato de ódio.

No communication, no understanding, no pain. To rest with my head on the scorching sun, to punish the act of fake lovers, to throw my body on a hanging cliff. Only inside.

I wanna close that door, forever. Even though I my regret. I want blood to be spilled and love to be killed. To kill. To kill.

DID I ASK FOR YOUR HELP

The problem is not with the help itself, the problem is that is yours. And  I want whatever is yours to wither in the heat, to drown in a fire, to bloom suffocated by thorns.

Whatever. Call me whatever. Is it “whatever is yours”? Is it? Whatever, call me Whatever. Whatever. What ever: will never.

Will never look you in the eye or find joy on a warm hug. Will never love the taste of food or travel with wonder in the eyes.

…Will never look at someone I love and surrender to them. Will never. Whatever. Just to be spit and scorned. Just to be stepped on like a stone to passbyers. I’ll make them trip. I’ll make their toes bleed and burn. I’ll get them from the tip of the longest hair strand and roll around until the end of the knees and chop the rest off

That’s withering. T& d=e. Whatever’s wither. A stepping stone is a stepping stone. An angular stone is an angular stone. I’m neither worthy of the humiliation nor the complete honor, instead just a stoning stone, to kill, to die, and to wither. To send hell, to draw blood, worthy of nothing: white out.

It’s Whatever.

I speak, you speak. I scream, you cry. I listen, you die. Just the motto rolling itself around. You die, I cry. No remorse from it. To kill is to help.

Whatever is “will never”. To let it live will never. To kill is to build a foundation. Whatever is will never. A stoning stone draws blood and then is cast away. A stoning stone keeps it on the inside, never cries for one to see, never ask for help, never act drama out.

A stoning stone’s life is TO KILL. Be this, be that. It’s whatever. I’ll do this, I’ll do that. It's whatever. This happened and this will happen, it’s whatever. You say this and you say that… but it’s whatever. You hurt me but it’s whatever.

White out. No thoughts, no feelings, no wishes, only desire, only mercy, only killing. No communication, no path: White out.

It’s whatever. Call me Whatever.


quinta-feira, 1 de maio de 2025

O K-pop está mudando (e é minha culpa)

  K-POP IS DEAD AND IT’S MY FAULT

What's wrong with k-pop?

Um gênero que sempre se destacou pela sua sonoridade tanto alienígena quanto agradável agora abraça ainda mais a comunicação dessa estética para seus Music Videos.

KATSEYE tem sido o olho do momento com sua música “Gnarly”, com uma estranheza sem precedentes em seu MV. O clipe começa com algo que na verdade parece um pouco difícil de conceber, que é o rosto da Yoonchae enrolado em plástico numa bandeja, como se ele tivesse sido arrancado dela. Um sanduíche sem sentido seguido por uma coreografia absurda. 

A música é com certeza um hit mas um hit bem diferente. O público pareceu bastante perturbado pela bizarrice do vídeo, enquanto reclama da falta de profundidade da letra, problema que já vem se manifestando desde o começo da carreira do grupo.

Mas o que ninguém pareceu perceber é o desconforto que vem dos rostos das integrantes na verdade te faz pensar que são clones fazendo coisas completamente absurdas e fora da realidade no lugar delas. Mas esse é o ponto: esse não é o Katseye.

O ponto do desconforto é que não parece que aquele é o KATSEYE, como se o próprio grupo tivesse se recusado a participar daqueles absurdos e fosse facilmente substituído por clones, isso é o que a nova era vêm prometendo de idol feitos por IA que podem viver pra sempre.

A única que parece ter sido não afetada é a Manon, a favorita do grupo, que sempre foi favorecida desde o começo do Debut Academy. De fato, o clipe abraça isso colocando ela no refrão, debaixo de holofotes, e literalmente andando num tapete vermelho. É quase uma implicação de que ela aceitou um acordo, ou empurrou as meninas pra poder ser o centro das atenções.

Na verdade, os elementos absurdos, mas especialmente os efeitos de distorção, as caretas dos paparazzi, tudo dá a impressão de que é um sonho, um sonho da própria Manon,em que ela está no mesmo grupo mas com outras pessoas que a aceitem e permitam exibir esse lado de estrela que ela sabe que é. Mas também, como se seu próprio subconsciente pedisse pra ela não ter vergonha e aceitar os desejos que estão por baixo de tudo.

Encarar a si mesmas e colocar seus conflitos internos em uma música, expressar eles pra fora, é um manifesto que diz: There’s nothing wrong with KATSEYE.




O mundo do k-pop sempre desaba sobre um conflito mas todo mundo varreu pra debaixo do tapete o quanto rancor as meninas sentiam pela Manon. Seja por achar que ela não colocava esforço o suficiente ou era favorecida só por ser um rosto mais bonito, ou por um talento secreto que nenhuma delas poderia obter por trabalho duro. Parece cruel inferir e discutir essas coisas aqui mas o que quero enfatizar é que: o conceito abraçou isso.

Tudo que incomodava, tudo que potencialmente poderia destruir o próprio grupo se tornou o próprio meio de arte para a expressão delas. A sensação de que é ou não é elas vai e volta toda vez que você assiste, como se elas estivessem presas DENTRO das performances. É como se elas não fossem elas mesmas: uma performance. No palco, na sala de prática, no descanso, até as roupas no aeroporto! É tudo uma performance.

Ver as meninas alcançarem esse nível de profundidade em suas performances me explode totalmente. Antes, elas tinham dificuldade com o conceito de um conceito, uma ideia que, como já expliquei antes, é majoritariamente coreana na música de hoje. A música ocidental está só agora começando a mergulhar seus pés nisso e percebendo que o k-pop não é um monte de canções de amor como eles imaginam.

A tendência ocidental de tornar tudo bonito só porque sim na verdade é o que vem corroendo a indústria ao longo dos anos, impedindo música e artistas de realmente se expressar sobre o que está acontecendo.

A 3° geração do k-pop fez de tudo pra alcançar um público, cativar, agradar… e foi exatamente isso que os matou. A influência do ocidente na música coreana permitiu a existência da k-wave, mas sua sobrevivência só é permitida se isso for temporário. Agora as novas gerações, cansados de viver em escombros e sombras, se perguntam: “O que os tornou grandes?” E cabe a eles peneirar cada aspecto para construir algo a partir disso: a revelia, a ganância, mas também o sacrifício, a empatia, a compaixão, tudo isso através do absurdo, a visão artística sem precedentes de comunicar seus anseios, aspirações, quebrar barreiras e regras, alcançar pessoas e um mundo novo.

Find yourself.



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Idolize-me e eu desejarei ser humanizado


A essa altura você já deve ter imaginado que eu gosto muito de k-pop. Apesar de pra mim ser difícil sempre consumir coisas novas, se tem uma coisa que sempre gostei foi pensar e analisar, mas eu nunca tinha parado pra refletir com profundidade sobre essa arte que eu praticamente respirava.

Isso tudo mudou quando eu conheci o canal Quadro em Branco, que faz vídeos analisando todos os tipos de arte, cinema, quadrinhos e música. Conheci ele por causa dos vídeos sobre Maus, um quadrinho que conta a perspectiva de um sobrevivente do Holocausto, e também vídeos analisando o terror corporal de Junji Ito, coisas certamente desagradáveis mas que esporadicamente despertam minha curiosidade. Por isso que pra mim foi estranho encontrar ele analisando a estrutura e características do k-pop, mas foi ele que me trouxe essa noção de que a indústria não deixa o artista amadurecer, no seu vídeo “O BTS está mudando a indústria”. Eu desejava muito que houvesse mais conteúdo assim, mas como não tem, decidi criar o meu próprio.

O BTS, grupo muito incompreendido pela mídia ocidental, sempre possuiu essa característica “amorfa”, de um camaleão que poderia ser qualquer coisa. Todo mundo que não conhece o BTS tem certos preconceitos contra o grupo ao ponto em que se você mostra uma música ou vídeo eles dizem “isso é BTS?” E você simplesmente tem que olhar nos olhos deles sem saber o que responder porque você também não sabe o que é BTS.

A versatilidade do grupo permitiu que eles explorassem diferentes estilos e sons e esse foi um dos fatores que os levou a encontrar seu mercado musical, além de cultivar um relacionamento de lealdade com os fãs por conseguirem projetar qualquer imagem que quisessem. Não que eles fossem falsos em fazer isso mas simplesmente que navegar pelo espectro das suas personalidades realmente é a especialidade deles e é a sua maneira de se relacionar com as pessoas e o mundo.

No vídeo do Quadro em Branco ele começa falando sobre o anúncio que o grupo fez sobre seu hiato. Na época muita gente não entendeu porque eles estavam chorando e sendo tão dramáticos, mas isso é porque ninguém estava entendendo o que eles estavam dizendo de verdade. Eles literalmente estavam falando como não podiam falar o que queriam, um pensamento fraseado como “nós já esgotamos tudo que tínhamos pra falar”, mas que camuflava a verdade de que eles se adaptaram tanto ao que os fãs esperavam, aquilo que é agradável, bonito e sereno, que eles não conseguiam quebrar essa barreira, como o Quadro em Branco diz até admitir que eles estão cansados soa como uma ingratidão contra o público deles.

Eu falei no exemplo do ILLIT como a indústria pode ser tão controladora que manipula todos os aspectos da arte sem deixar espaço para ela crescer, mas aqui quero trazer outra reflexão que não é só a indústria que está sufocando a arte mas que ser esse camaleão, esse ídolo de uma imagem perfeita, que se adapta à expectativa dos outros, também limita a expressão do artista.

Eu sei por experiência própria o que é estar farto de tentar assumir controle e simplesmente se esvaziar de tudo que você é pra se tornar uma marionete da estrutura em que você vive, e isso pode ser k-pop, trabalho, escola, família, qualquer área da vida. O estranho é que pode parecer que você está se protegendo mas abdicar de sua individualidade e seus sentimentos é morrer, uma morte vazia e teroicamente eterna.

Muito se questiona como vai ser essa volta do BTS como grupo completo porque dependendo do que eles fizerem, e isso é óbvio, a trajetória da carreira deles vai ser mudada daqui pra frente. O maior medo é do tempo vencer e eles serem deixados de lado, algo do qual nem a lealdade do público poderia salvá-los. Essencialmente, todos os olhos estão voltados pra saber se eles vão se deixar morrer dessa forma ou se vão abraçar o caos e se comprometer com todos os excessos do k-pop.

Seria ingenuidade da minha parte dizer que eles nunca exploraram esses aspectos porque eles têm literalmente um álbum sobre essa jornada de autoconhecimento chamado Map of the Soul (ou Mapa da Alma), que aborda muitos tópicos da psicologia Jungiana. A música introdutória, Intro: Persona, escrita pelo líder do grupo RM, poderia facilmente ser o hino do BTS, já começando a com a frase “Quem sou eu? A pergunta pra qual eu não vou encontrar uma resposta por toda minha vida”. E eu encorajo você a ouvir a música antes de continuar lendo pois ela, subconscientemente ou não, fala de todos os conflitos entre a fama e o eu incluindo se sentir como se não merecesse todo o reconhecimento que conquistou. 

Aqui a gente tem que entender a diferença entre Persona e Ego, porque a persona é a parte de você que você quer apresentar pro mundo. Ou seja, ele quer ser visto como alguém humilde, desajeitado, imaturo que não sabe o que está fazendo, esse que é ponto da música, por isso ele quer saber quem é, porque se perdeu no papel que criou pra si próprio. A gente pode ver isso nas outras músicas do grupo que, como eu comentei antes, é desprovida de um padrão e o crescimento deles se deve a essa flexibilidade, como se essas diferentes facetas fossem criadas pra aplacar o julgamento das pessoas ao redor. Como eu disse, não que necessariamente isso seja falsidade, mas que simplesmente todos esses lados e todos esses “eus” também são o RM.

Dito isso o que é estranho é que o próprio RM provavelmente sabe exatamente quem ele é, quando ele admite que reconhece sua sombra e que ela o persegue como uma onda de calor. A Sombra, que é a parte de você que foi reprimida voluntária ou involuntariamente, carrega todos aqueles sentimentos negativos que o mundo ao seu redor ensinou que não era apropriado e acabam não tendo espaço na sua identidade por causa da pressão externa. O único problema é que você nunca consegue realmente deixar de ser quem você é, nem fugir dos seus próprios pés.

Agora é a parte do texto em que eu percebo que eu provavelmente estava errado esse tempo todo em achar que o BTS não conhecia a si mesmo, pois o grupo sempre alternou entre sombra e persona com uma sutileza que é quase assustadora, “escondendo” partes da sua sombra na sua arte como um verdadeiro enigma ou mapa do tesouro (ou melhor, mapa da alma), como que realmente desejando serem encontrados.

A questão do por quê o ato de “falar” é tão importante, é porque no início de suas carreiras esse “barulho” contra o sistema era tudo que eles tinham, como uma forma de se extravasar, se libertar e conquistar atenção. Enquanto a trajetória do grupo foi, em grande parte, abandonar a imagem forte e forçada, muito desse barulho permaneceu, agora não necessariamente contra uma estrutura, mas voltado internamente, quase que pra retratar um barulho interno. 

Na música Interlude: Shadow, a ambição que vem da sombra é apresentada e ninguém melhor pra falar sobre isso do que a pessoa que sempre foi mais sincera sobre suas ambições: SUGA. “Eu quero ser um rapstar, eu quero estar no topo”, são as coisas que ele começa nos contando depois dessa imagem de um espelho se reconstituindo, uma introspecção que revela um medo desses impulsos obscuros que crescem mais a medida que se vai mais longe. Mais fama, mais alto e com certeza: mais medo de cair, mas sem nunca abandonar a vontade por ainda mais, sem poder ignorar essa sede que desce ardendo. 

Só tem um pequeno probleminha: ambição não é a sombra. A ambição, as conquistas, os prêmios, os números, a fama, o sucesso, os objetos de luxo são todos formas de compensar uma inadequação interna. Se esses seus impulsos reprimidos não são aceitos, você se sente mais sozinho, mais isolado e é consumido por um verdadeiro desespero, desespero pra ser ouvido e pra conseguir afirmação externa sobre a sua identidade.

Até que ponto você iria para ser amado? Moldaria uma mentira bonita? Se apagaria pra se tornar um boneco? O BTS criou todas essas obrigações para com seus fãs mas a dualidade que eu não entendo é como tanto o BTS se dobra pra agradar o Army (seus fãs) quanto o Army se dobra pra agradar o BTS, porque eles só estão presos na suas obrigações para com os fãs porque eles acreditam que os fãs tem obrigação para com eles. Até atrás dos seus sentimentos de gratidão estão possessividade e ganância e esse que é o problema real: eles são copos quase transbordando de sentimentos explosivos mas se recusam a aceitar essa sombra de si mesmos.

E não é como se eles pudessem se rebelar e culpar o motivo do seu silêncio nos fãs e na indústria porque eles também manipularam a indústria. O Army não deve desculpas simplesmente porque agem como o próprio BTS cativou o seu público pra ser, a ironia de cultivar certos perfis e atitudes na sua platéia e depois ficar confuso com as ações dela.

A verdade é que só se consegue realmente aproveitar o BTS se você não for fã deles. O Army vai endeusá-los independente do que eles fizerem, algo que eles juram que é amor e lealdade mas honestamente é o aspecto mais antiprofissional do k-pop. O artista quer aprovação, quer ser um ídolo e praticamente condiciona o seu público a tratá-lo assim e depois vem o paradoxo de que ele gostaria de ser tratado diferente. É a inconsistência absurda: idolize-me e desejarei ser humanizado, humanize-me e desejarei ser idolizado.

O que realmente me preocupa é como isso é agravado pelo público do k-pop que parece completamente alienado desses processos, tão acostumados com a ideia de “conceito” que quando os artistas lhe contam histórias absurdas, não sabem de onde aquilo vêm nem refletem sobre o que significa. São atingidos pela letra, pela melodia, pela performance mas completamente alheios à todas as sutilezas, realmente acreditando que tudo isso é apenas um teatro pra eles.

Todo mundo é louco pra tentar reproduzir a fórmula do BTS e quase ninguém sabe como começar mas é a mesma coisa que fez outros grupos fazerem sucesso: sinceridade e sentimento. Tudo que começou com aquele desespero adolescente mas que a gente carrega pro resto da vida: desespero por pertencer, por ser ouvido, amar e ser amado, preencher o vazio. Agora, é impossível ser sincero se você não se conhece.

Eu passei 17 parágrafos falando sobre o BTS apenas pra ilustrar o meu ponto que todo idol é assim, ou melhor, todo ser humano é assim. Imagine algo dentro de si que seja tão feio, tão desagradável, tão lacerante, que apenas olhar pra isso te faria enlouquecer. Não é só assustador, é lindo. Enlouqueça. Pra melhor ou pra pior, esse é o verdadeiro conhecimento do bem e do mal. Abrace sua sombra com um ar de atrevimento e desejo, sendo fiel a quem você é como se isso fosse sua verdadeira religião. Não acredito que a serpente mentiu para Eva, porque, verdadeiramente, isso é se tornar como Deus: conhecer a luz e as trevas, o amor e o medo.

Ídolo ou humano? Você quer ser um deus? Morda a maçã.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

ILLIT, entre claro e escuro: A busca por identidade


   Faz 11 anos que eu abandonei esse blog e a minha criatividade de escrever. Parece que quando criança tudo na sua cabeça é mais simples e direto, você sabe exatamente o que gosta e o que quer, mas quando crescemos nos tornamos escravos desses retângulos digitais, peregrinando pelos algoritmos como que procurando por algo, talvez até procurando por nós mesmos.

Sempre fui fascinado por histórias, e nos últimos 6 anos esse interesse foi satisfeito pela minha bolha de preferência, o k-pop. Entre as muitas coisas que encontrei na minha peregrinação, semana passada encontrei um certo número de vídeos curtos falando sobre a apresentação do ILLIT com o JYP em um festival. Pra você que parece que eu falei grego, calma. Eu sei que k-pop é um divisor de águas entre as pessoas, ou você ama ou você odeia, e na verdade entristece ver como todas as nuances artísticas desse estilo se perdem nessa briga.

Na verdade o k-pop pode parecer essa tendência recente entre garotas adolescentes, mas é um gênero se consolidou já há muito tempo, e que vem evoluindo em tamanho e qualidade desde a década de 90, na qual o JYP (Jin-young Park) foi um dos artistas pioneiros da época, e não só artista como um dos produtores que moldou todas as premissas de hoje do k-pop. Ele apostou todas as cartas que tinha na ocidentalização do som e era conhecido por misturar Hip-Hop e R&B nas suas músicas, algo que marcou a virada pro surgimento desse novo gênero tão nacional da Coréia mas ao mesmo tempo moderno e eclético. Mesmo fundando sua própria empresa e gerenciando novos artistas, JYP nunca realmente deixou de fazer música, e em 2020, ele lançou sua música “When We Disco”, que tinha esse som nostálgico e característico da era eurodisco dos anos 80. 

Não foi exatamente algo inovador pra época porque outras músicas com pegada mais retrô também foram lançadas, mas essa música tem um caráter especialmente dramático, originalmente um dueto com a Sunmi, solista bem estabelecida na cena e que tem uma qualidade vocal suave mas que carrega esse ar misterioso e quase melancólico. Tendo isso em vista é surpreendente que o JYP tenha escolhido o ILLIT pra cantar essa música com ele no festival. O ILLIT, sendo um grupo que sempre se apresenta com uma identidade mais fofinha e radiante, num primeiro momento não parecia a escolha ideal pra esse tipo de música pois dificilmente essas meninas com seu ar tão vibrante e animado conseguiriam se equiparar ao papel da Sunmi no original.

A princípio, como o festival em questão não tinha tanto peso quanto outros gigantes na Coréia, a escolha parecia ser mais para promover o ILLIT, que tinha acabado de estrear em 2024, e também um necessário encontro das diferentes gerações do k-pop: o futuro com o ILLIT, que são as repercussões e desdobramentos mais recentes do gênero e o passado com o JYP, que foi um dos vanguardistas da cena. O JYP desenvolveu os métodos de treinamento dos artistas, que permite que eles alcancem excelência nas performances, mas em tempos recentes muito se fala sobre essas performances e houveram muitas críticas à artistas que supostamente “não sabiam cantar”. O ILLIT, por não ter passado pelo mesmo rigor técnico que outros grupos, foi pego logo no meio disso, sendo que a Moka recebeu a maior parte dessas críticas. 

Na apresentação de When We Disco, logo de cara o grupo realmente parece incompatível com a música, mas a surpresa está no tom vocal de Moka quando ela canta na segunda parte da música, com uma voz quente e sombria, diferente de tudo que o ILLIT apresentou em suas músicas até agora. As partes que se seguem são mais graves e as integrantes cantam com uma qualidade que parece até muito mais misteriosa e dramática do que a voz da Sunmi. Por mais que o resto da performance pareça ter problemas de estabilidade vocal, tanto por parte das meninas quanto por parte do JYP, é impossível não se sentir satisfeito com essas partes mais escuras e hipnóticas da música.

A questão que permanece é: será que a empresa dessas meninas, a HYBE Labels, desenvolveu a voz delas pra um caminho completamente diferente de suas verdadeiras qualidades?

Quando o k-pop começou a chamar a atenção do Brasil, as pessoas reagiam às músicas e aos vídeos com grande confusão. Todas aquelas referências, cores, roupas não faziam sentido para muitos, mas essa era a exata magia que atraiu tantos pra esse mundo, o fato de que por trás daquilo existia um contexto que conectava tudo. Desde que o humano é humano tem uma coisa que sabemos fazer bem: contar histórias, e é assim que surgem os "conceitos" no k-pop. Histórias a gosto, do tipo que você quiser, pra se identificar e decifrar, adicionando profundidade às letras, produções e vídeos.

A aparência de um artista é considerada com cuidado por um empresa, não só por que se trata de uma indústria audiovisual mas também porque isso impacta muito em qual conceito eles podem ou não fazer. Ser escolhido por essas empresas é mais ou menos um jogo de você se encaixar no que eles buscam, pois não importa se você tem talento, afinal o lema do k-pop é criar talentos do zero. Artistas com aparência mais fofa são direcionados para grupo com conceito mais leve e refrescante, encorajados a incorporar papéis de possíveis namorados e namoradas. Enquanto artista com aparência mais matura são direcionados a grupos com temas sedutores e encorajados provocar e flertar com o público, mesmo se isso os deixar desconfortáveis. Ambos os casos, focam na objetificação do idol, nessa indústria em que o artista é o produto.

O conceito de ter um conceito é tão importante na cena que tudo se dobra ao redor dele: maquiagem, cabelo, roupas, dança, voz e até o próprio artista. No grupo Twice, Jihyo possui uma voz mais encorpada que as outras integrantes do grupo mas, principalmente no começo da carreira, buscava apresentar uma voz mais leve e fofa para encaixar com os temas das músicas. E, por mais que fosse líder vocal, sua companheira Nayeon recebia muito mais tempo de tela e linhas nas músicas simplesmente por ser compatível com o tom e imagem desejado pro grupo.

O aespa, na ânsia de ganhar reconhecimento como grupo novato, apostou suas fichas na voz magnética da Winter, fazendo músicas inteiras que favoreciam o tom dela mas negligenciavam o tom das outras integrantes. Esses são só alguns exemplos e é porque estamos falando só de voz, na verdade cada aspecto do produto é manipulado em prol daquilo que vai funcionar com o conceito e agradar mais o público. As empresas cada vez mais passam por cima das preferências e experiências de seus artistas em nome do que acreditam que lhes dará dinheiro, isso dá a impressão de que a exata coisa que tornou o k-pop tão atraente está agora sufocando o seu próprio meio de existência. 

Não digo que as meninas do ILLIT estejam sendo forçadas a fazer o que não querem para uma companhia gananciosa e diabólica, mas quero trazer à luz a verdade de que a empresa lançou mão de desenvolver as verdadeiras cores e potenciais dessas artistas em troca do que parecia mais seguro para os executivos. Será que não está na hora do k-pop crescer e confiar nos seus artistas para produzir um conteúdo significativo e pessoal?

Saindo um pouco dos questionamentos sobre a indústria como um todo, o ILLIT foi muito acusado por supostamente copiar o NewJeans em muitos aspectos da produção. Não que seja possível um grupo ter direitos autorais sobre um conceito ou uma sonoridade mas se o problema é originalidade, porque a empresa não explora esses aspectos que o ILLIT já tem inatamente em vez de tentar recriar o sucesso de um grupo que fez sucesso justamente por ser original? Seria inovador esconder em um conceito leve e inocente um aspecto misterioso e magnético que refletisse essas qualidades das integrantes, a própria música delas “Cherish My Love” fala coisas como “você tem 3 segundos pra dizer se me ama ou não” e “seus sentimentos estão em segundo lugar, o que eu decido vem primeiro” que apesar do ar muito fofinho passa essa ideia muito forte de controle, como se elas escondessem uma natureza quase que assustadora e ao mesmo tempo irresistível.

Fazer alterações assim seria sutil mas muito desafiador, seu produtor, o Slow Rabbit, teria realmente que fazer seu dever de casa, mas ele seria ideal pra isso. Apesar que em matéria de conceitos dramáticos ele já produziu verdadeiros fracassos musicais como “LOSER=LOVER” do TXT ele também estava presente naquela fase inicial do BTS, que tinha uma música de aspecto muito mais pessoal e escuro, um desespero adolescente que apelou bem pro público da época. 

A pergunta é se as meninas do ILLIT conseguem crescer junto com o conceito, ou melhor, se o conceito vai crescer junto com elas, se adaptando a medida que se desenvolvem. Mas então a pergunta real é se elas vão ter coragem de se aventurar dentro de si mesmas e crescer, e aí a frase que originou o nome do grupo seria seu lema: “I’ll be it” ou “Eu serei isso”, independente do que “isso” possa significar.

No mundo ocidental a gente escuta muito barulho de uma sociedade que prega tanto sobre liberdade e individualidade mas na qual ninguém sabe quem se é de verdade. Todo mundo quer provar algo pros outros e tem verdadeiro pavor de olhar pra dentro de si. Se já é assim em uma sociedade que tem o individualismo tão arraigado na cultura, imagina pra um lugar como a Coréia onde a conformidade e o coletivo são priorizados acima de tudo. 

Todo artista tem algo a dizer mas eles praticamente se autocensuram ou são moídos por suas empresas. Se o gênero as vezes parece vazio de significado isso é porque falta coragem pra dizer o que precisa ser dito sem sutileza. O k-pop está à beira de um verdadeiro colapso: ou o público vai se entendiar de ouvir mas não escutar nada, ou os artistas vão divergir de todos os paradigmas do gênero e iniciar uma nova era em que todas as suas cores irão vazar.

Vão conseguir ter coragem pra se encarar no espelho? Vão cultivar expectativas saudáveis entre artistas e fãs? Vão alcançar independência artística dentro de suas empresas? Tudo isso depende de algo que ninguém pode medir, uma rebelião silenciosa e interna mas que é o tipo mais perigoso que existe: Bem-vindo à revolução da alma, anjo caído.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Daniel 4

¶ Nabucodonosor rei, a todos os povos, nações e línguas, que moram em toda a terra: Paz vos seja multiplicada.
Pareceu-me bem fazer conhecidos os sinais e maravilhas que Deus, o Altíssimo, tem feito para comigo.
Quão grandes são os seus sinais, e quão poderosas as suas maravilhas! O seu reino é um reino sempiterno, e o seu domínio de geração em geração.
¶ Eu, Nabucodonosor, estava sossegado em minha casa, e próspero no meu palácio.
Tive um sonho, que me espantou; e estando eu na minha cama, as imaginações e as visões da minha cabeça me turbaram.
Por isso expedi um decreto, para que fossem introduzidos à minha presença todos os sábios de babilônia, para que me fizessem saber a interpretação do sonho.
Então entraram os magos, os astrólogos, os caldeus e os adivinhadores, e eu contei o sonho diante deles; mas não me fizeram saber a sua interpretação.
Mas por fim entrou na minha presença Daniel, cujo nome é Beltessazar, segundo o nome do meu deus, e no qual há o espírito dos deuses santos; e eu lhe contei o sonho, dizendo:
Beltessazar, mestre dos magos, pois eu sei que há em ti o espírito dos deuses santos, e nenhum mistério te é difícil, dize-me as visões do meu sonho que tive e a sua interpretação.
Eis, pois, as visões da minha cabeça, estando eu na minha cama: Eu estava assim olhando, e vi uma árvore no meio da terra, cuja altura era grande;
Crescia esta árvore, e se fazia forte, de maneira que a sua altura chegava até ao céu; e era vista até aos confins da terra.
A sua folhagem era formosa, e o seu fruto abundante, e havia nela sustento para todos; debaixo dela os animais do campo achavam sombra, e as aves do céu faziam morada nos seus ramos, e toda a carne se mantinha dela.
Estava vendo isso nas visões da minha cabeça, estando eu na minha cama; e eis que um vigia, um santo, descia do céu,
Clamando fortemente, e dizendo assim: Derrubai a árvore, e cortai-lhe os ramos, sacudi as suas folhas, espalhai o seu fruto; afugentem-se os animais de debaixo dela, e as aves dos seus ramos.
Mas deixai na terra o tronco com as suas raízes, atada com cadeias de ferro e de bronze, na erva do campo; e seja molhado do orvalho do céu, e seja a sua porção com os animais na erva da terra;
Seja mudado o seu coração, para que não seja mais coração de homem, e lhe seja dado coração de animal; e passem sobre ele sete tempos.
Esta sentença é por decreto dos vigias, e esta ordem por mandado dos santos, a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer, e até ao mais humilde dos homens constitui sobre ele.
Este sonho eu, rei Nabucodonosor vi. Tu, pois, Beltessazar, dize a interpretação, porque todos os sábios do meu reino não puderam fazer-me saber a sua interpretação, mas tu podes; pois há em ti o espírito dos deuses santos.
¶ Então Daniel, cujo nome era Beltessazar, esteve atônito por uma hora, e os seus pensamentos o turbavam; falou, pois, o rei, dizendo: Beltessazar, não te espante o sonho, nem a sua interpretação. Respondeu Beltessazar, dizendo: Senhor meu, seja o sonho contra os que te têm ódio, e a sua interpretação aos teus inimigos.
A árvore que viste, que cresceu, e se fez forte, cuja altura chegava até ao céu, e que foi vista por toda a terra;
Cujas folhas eram formosas, e o seu fruto abundante, e em que para todos havia sustento, debaixo da qual moravam os animais do campo, e em cujos ramos habitavam as aves do céu;
És tu, ó rei, que cresceste, e te fizeste forte; a tua grandeza cresceu, e chegou até ao céu, e o teu domínio até à extremidade da terra.
E quanto ao que viu o rei, um vigia, um santo, que descia do céu, e dizia: Cortai a árvore, e destruí-a, mas o tronco com as suas raízes deixai na terra, e atada com cadeias de ferro e de bronze, na erva do campo; e seja molhado do orvalho do céu, e a sua porção seja com os animais do campo, até que passem sobre ele sete tempos;
Esta é a interpretação, ó rei; e este é o decreto do Altíssimo, que virá sobre o rei, meu senhor:
Serás tirado dentre os homens, e a tua morada será com os animais do campo, e te farão comer erva como os bois, e serás molhado do orvalho do céu; e passar-se-ão sete tempos por cima de ti; até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer.
E quanto ao que foi falado, que deixassem o tronco com as raízes da árvore, o teu reino voltará para ti, depois que tiveres conhecido que o céu reina.
Portanto, ó rei, aceita o meu conselho, e põe fim aos teus pecados, praticando a justiça, e às tuas iniqüidades, usando de misericórdia com os pobres, pois, talvez se prolongue a tua tranqüilidade.
¶ Todas estas coisas vieram sobre o rei Nabucodonosor.
Ao fim de doze meses, quando passeava no palácio real de babilônia,
Falou o rei, dizendo: Não é esta a grande babilônia que eu edifiquei para a casa real, com a força do meu poder, e para glória da minha magnificência?
Ainda estava a palavra na boca do rei, quando caiu uma voz do céu: A ti se diz, ó rei Nabucodonosor: Passou de ti o reino.
E serás tirado dentre os homens, e a tua morada será com os animais do campo; far-te-ão comer erva como os bois, e passar-se-ão sete tempos sobre ti, até que conheças que o Altíssimo domina sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer.
Na mesma hora se cumpriu a palavra sobre Nabucodonosor, e foi tirado dentre os homens, e comia erva como os bois, e o seu corpo foi molhado do orvalho do céu, até que lhe cresceu pêlo, como as penas da águia, e as suas unhas como as das aves.
¶ Mas ao fim daqueles dias eu, Nabucodonosor, levantei os meus olhos ao céu, e tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é um domínio sempiterno, e cujo reino é de geração em geração.
E todos os moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes?
No mesmo tempo tornou a mim o meu entendimento, e para a dignidade do meu reino tornou-me a vir a minha majestade e o meu resplendor; e buscaram-me os meus conselheiros e os meus senhores; e fui restabelecido no meu reino, e a minha glória foi aumentada.
Agora, pois, eu, Nabucodonosor, louvo, exalço e glorifico ao Rei do céu; porque todas as suas obras são verdade, e os seus caminhos juízo, e pode humilhar aos que andam na soberba.

Livro: Bíblia

Daniel 4:1-37

;)

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

No ônibus

 Quando eu volto da escola e vou para casa, vou de ônibus. Vejo todo tipo de pessoa passar pela roleta. Já vi aquelas pessoas bem altas que tem que se agachar para não baterem a cabeça no teto, já vi aqueles baixinhos que de longe parecem crianças, já vi aquelas pessoas que tem uma largura... Digamos... exagerada (resumindo os gordos que chamo de fofinhos), esses sim tem um problema tremendo, as vezes a barriga fica presa na roleta. Mas, o problema que eu acho maior, são pessoas como eu, que só tem osso e órgãos, tem que fazer o maior esforço pra passar pela roleta. Empurra com a "barriga", com os braços, as costas, os pés, até que finalmente, o cobrador decide lhe dar uma forcinha, literalmente.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Trova de Margarida Ottoni

Se quiseres conquistar,
deixa o modo imperativo,
e conjuga o verbo amar
com jeitinho indicativo.

Amar, verbo transitivo
que nos altera a razão
faz do sujeito um cativo,
do objeto, o rei da oração

(Cantigas do entardecer - trovas. Rio de Janeiro: Edições Artesanais, 2001)

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Sonhos

 Ao ver a lua, sonho, sonho como criança.
Depois, olho para a rua,
Aquela faixa preta, cheia de confiança, ela dança.

 As estrelas pulam de alegria,
Brilhando no céu, agora negro.
Brincam com os planetas,
Cheios de euforia.

Continuo fitando os olhos para a janela,
Agora com os olhos fechados,
Que será que me aguarda, em minha terra?:

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Avesso

Quem sou eu e meu avesso? Que urdiduras na sombra, que tramas secretas num quarto escuro de mim? Quem sou eu quando durmo ou quando de olhos abertos me arremesso para o futuro saltando sobre ilhas e desertos? Quem sou eu quando me confundo e tropeço, alço voo e mergulho?

M...

Você conhece a verdadeira história do flautista de Hamelin? Todos sabem que a cidade de Hamelin estava infestada de ratos e não havia nada...