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Você conhece a verdadeira história do flautista de Hamelin?

Todos sabem que a cidade de Hamelin estava infestada de ratos e não havia nada que alguém pudesse fazer contra os roedores que atormentavam os seu habitantes. Então, um músico muito habilidoso, com sua flauta mágica, tocou uma arrebatadora melodia que atraiu os ratos e ele os guiou para um precipício no qual os ratos se atiraram abismo abaixo. O que ninguém diz é que o flautista de Hamelin se sentiu muito satisfeito com seu trabalho e exigiu um pagamento à cidade. Quando se recusaram a pagar ele logo se decidiu: tocou mais uma vez sua bela melodia, dessa vez atraindo todas as crianças pra fora da cidade, e dançavam e riam alegremente. Então, habilidosamente, tocando um sequência específica de notas, ele fez com que as cabeças de todas as crianças explodissem.

Outra história: Davi, antes de toda sua glória de rei, era conhecido por ser um excelente músico. Quando o rei Saul estava atormentado por um espírito mau ele foi chamado para tocar na corte, e dar alívio ao rei. Entretanto ele tocava por dias e dias, horas sem parar, e nunca era suficiente para Saul. Davi lhe dava paz, mas a paz nunca era suficiente, então ele decidiu que só existia um caminho: destruição. Ele tocou uma sequência de notas dissonantes, coisas que ressoavam na alma de Saul, torturando-o, fazendo-o enfrentar o que ele não queria ver. Saul, é claro, ficou furioso, tomou uma lança e atirou em Davi, que teve que fugir pra fora do reino. Se Davi tivesse terminado seu trabalho com Saul, certamente ele estaria livre da sua doença, mas a metamorfose não é pra qualquer um.

Esse definitivamente é o lado mais obscuro e violento da música, mas ela tem um papel de transformação também, de tocar nas pessoas e levá-las à alguma realização ou a uma ação. Esse é o poder transformador da música.

Em sua música Pied Piper, o BTS se aproveita do conceito de uma música que é encantadora e atraente, a pessoa esquece das suas tarefas diárias para seguir essa melodia sem conseguir resistir, e quanto mais forte a ideia de proibido, mais doce é a voz que chama. O eu-lírico se reconhece como perigoso, como o fruto proibido e ele pede desculpas por estar arruinando o ouvinte. Eu deveria perdoar? Depois de passar talvez milhares de horas ouvindo, assistindo, eu deveria perdoar esses ídolos que de maneira egoísta me prenderam com suas músicas?

BTS, TXT, Enhypen, Twice, NCT, Kiss of Life, ILLIT, Les Serafim, ITZY, Stray Kids, &Team, Seventeen, Ateez, The Boyz, iKON, Kang Daniel, JYP, Treasure, VAV, Victon, Newkidd, Blackpink, Loona, dearALICE, tripleS, Babymonster, NewJeans, Kep1er, aespa, IVE, GFRIEND, (G)-idle, fromis_9, Purple Kiss, Everglow, IZ*ONE, Red Velvet, Sunmi, Chung ha… eu deveria perdoar vocês por roubarem minha vida de mim? Tudo pra vocês terem um gosto de fama, de aprovação. Devo perdoar por me falarem pra sonhar irresponsavelmente? Apenas pra no fim eu ser consumido por dor e sangue por todos aqueles cenários impossíveis, olhando pra Lua a noite e pensando que deve ser muito fácil ter o Sol brilhando pra você no outro lado do mundo. Você me amaldiçoou com tanta dor, tanto choro. Devo perdoar?

O pior é que eu devo. Pra qualquer pessoa aliado que não consegue cumprir com as demandas do mundo por causa de um artista do outro lado do globo é porque ele nunca quis se conformar com essas demandas em primeiro lugar. A dor impede a alma de morrer. É contraditório, mas é a única resposta. A paz não é a resposta, a paz é muito branca. A destruição, por mais que imprevisível e agressiva, é uma ferramenta para verdadeira transformação e libertação.

Todos lembram de como o BTS começou lá atrás, aquelas músicas barulhentas, com argumentos e críticas muito claras a um sistema que não se podia mais sustentar. Talvez aquele barulho não tenha sido apenas um desespero para ser visto, mas realmente a expressão de um atributo inerente que existia neles. A música toca em áreas escondidas da psique e representa um desejo de libertação, destruição e renovação e é através da dor, do desejo de destruir e do barulho é que a mudança é alcançada. Esse é o acionar de um estado inato de transformação, um desejo profundo e incompreendido de se diferenciar, guiado pela presença de uma sombra que permite a transcendência pela ruptura, uma sombra que tem seus aspectos sombrios integrados pela música.

Quando damos as costas a tudo isso, encontramos paz. Um alívio da dor que nos atormenta, dos impulsos que nos assustam, dos desejos que nos consomem. Esse silêncio, essa estabilidade, esses estado de permanência… é isso que você quer? É o silêncio que você quer? A sua paz liga pros seus sonhos? A sua paz liga pra quem você é? Como disse o Emicida, em “Ismália encontra a paz”: “A paz que eles almejam sabe o nome de alguma das 30.000 crianças palestinas mortas? A paz chora pelas crianças com uniforme de escola mortas no caminho do colégio no Rio de Janeiro?”

A sua paz… chora pela sua morte? 

O que cabe na sua paz? O que cabe na sua ideia de paz?

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