sábado, 30 de agosto de 2025
Nunca serei se torna Tanto faz
quarta-feira, 7 de maio de 2025
white out.
[Porta 075]
White Out. A white that is worse than Neverland. No thoughts, no feelings, no noise. No will, no path, no condition.
Jesus, como eu queria achar a chave dessa porta pra trancar ela pra sempre. Pra dar meu sangue pros cães lamberem, pra torcer um pano num ato de ódio.
No communication, no understanding, no pain. To rest with my head on the scorching sun, to punish the act of fake lovers, to throw my body on a hanging cliff. Only inside.
I wanna close that door, forever. Even though I my regret. I want blood to be spilled and love to be killed. To kill. To kill.
DID I ASK FOR YOUR HELP
The problem is not with the help itself, the problem is that is yours. And I want whatever is yours to wither in the heat, to drown in a fire, to bloom suffocated by thorns.
Whatever. Call me whatever. Is it “whatever is yours”? Is it? Whatever, call me Whatever. Whatever. What ever: will never.
Will never look you in the eye or find joy on a warm hug. Will never love the taste of food or travel with wonder in the eyes.
…Will never look at someone I love and surrender to them. Will never. Whatever. Just to be spit and scorned. Just to be stepped on like a stone to passbyers. I’ll make them trip. I’ll make their toes bleed and burn. I’ll get them from the tip of the longest hair strand and roll around until the end of the knees and chop the rest off
That’s withering. T& d=e. Whatever’s wither. A stepping stone is a stepping stone. An angular stone is an angular stone. I’m neither worthy of the humiliation nor the complete honor, instead just a stoning stone, to kill, to die, and to wither. To send hell, to draw blood, worthy of nothing: white out.
It’s Whatever.
I speak, you speak. I scream, you cry. I listen, you die. Just the motto rolling itself around. You die, I cry. No remorse from it. To kill is to help.
Whatever is “will never”. To let it live will never. To kill is to build a foundation. Whatever is will never. A stoning stone draws blood and then is cast away. A stoning stone keeps it on the inside, never cries for one to see, never ask for help, never act drama out.
A stoning stone’s life is TO KILL. Be this, be that. It’s whatever. I’ll do this, I’ll do that. It's whatever. This happened and this will happen, it’s whatever. You say this and you say that… but it’s whatever. You hurt me but it’s whatever.
White out. No thoughts, no feelings, no wishes, only desire, only mercy, only killing. No communication, no path: White out.
It’s whatever. Call me Whatever.
quinta-feira, 1 de maio de 2025
O K-pop está mudando (e é minha culpa)
K-POP IS DEAD AND IT’S MY FAULT
What's wrong with k-pop?
Um gênero que sempre se destacou pela sua sonoridade tanto alienígena quanto agradável agora abraça ainda mais a comunicação dessa estética para seus Music Videos.
KATSEYE tem sido o olho do momento com sua música “Gnarly”, com uma estranheza sem precedentes em seu MV. O clipe começa com algo que na verdade parece um pouco difícil de conceber, que é o rosto da Yoonchae enrolado em plástico numa bandeja, como se ele tivesse sido arrancado dela. Um sanduíche sem sentido seguido por uma coreografia absurda.
A música é com certeza um hit mas um hit bem diferente. O público pareceu bastante perturbado pela bizarrice do vídeo, enquanto reclama da falta de profundidade da letra, problema que já vem se manifestando desde o começo da carreira do grupo.
Mas o que ninguém pareceu perceber é o desconforto que vem dos rostos das integrantes na verdade te faz pensar que são clones fazendo coisas completamente absurdas e fora da realidade no lugar delas. Mas esse é o ponto: esse não é o Katseye.
O ponto do desconforto é que não parece que aquele é o KATSEYE, como se o próprio grupo tivesse se recusado a participar daqueles absurdos e fosse facilmente substituído por clones, isso é o que a nova era vêm prometendo de idol feitos por IA que podem viver pra sempre.
A única que parece ter sido não afetada é a Manon, a favorita do grupo, que sempre foi favorecida desde o começo do Debut Academy. De fato, o clipe abraça isso colocando ela no refrão, debaixo de holofotes, e literalmente andando num tapete vermelho. É quase uma implicação de que ela aceitou um acordo, ou empurrou as meninas pra poder ser o centro das atenções.
Na verdade, os elementos absurdos, mas especialmente os efeitos de distorção, as caretas dos paparazzi, tudo dá a impressão de que é um sonho, um sonho da própria Manon,em que ela está no mesmo grupo mas com outras pessoas que a aceitem e permitam exibir esse lado de estrela que ela sabe que é. Mas também, como se seu próprio subconsciente pedisse pra ela não ter vergonha e aceitar os desejos que estão por baixo de tudo.
Encarar a si mesmas e colocar seus conflitos internos em uma música, expressar eles pra fora, é um manifesto que diz: There’s nothing wrong with KATSEYE.
O mundo do k-pop sempre desaba sobre um conflito mas todo mundo varreu pra debaixo do tapete o quanto rancor as meninas sentiam pela Manon. Seja por achar que ela não colocava esforço o suficiente ou era favorecida só por ser um rosto mais bonito, ou por um talento secreto que nenhuma delas poderia obter por trabalho duro. Parece cruel inferir e discutir essas coisas aqui mas o que quero enfatizar é que: o conceito abraçou isso.
Tudo que incomodava, tudo que potencialmente poderia destruir o próprio grupo se tornou o próprio meio de arte para a expressão delas. A sensação de que é ou não é elas vai e volta toda vez que você assiste, como se elas estivessem presas DENTRO das performances. É como se elas não fossem elas mesmas: uma performance. No palco, na sala de prática, no descanso, até as roupas no aeroporto! É tudo uma performance.
Ver as meninas alcançarem esse nível de profundidade em suas performances me explode totalmente. Antes, elas tinham dificuldade com o conceito de um conceito, uma ideia que, como já expliquei antes, é majoritariamente coreana na música de hoje. A música ocidental está só agora começando a mergulhar seus pés nisso e percebendo que o k-pop não é um monte de canções de amor como eles imaginam.
A tendência ocidental de tornar tudo bonito só porque sim na verdade é o que vem corroendo a indústria ao longo dos anos, impedindo música e artistas de realmente se expressar sobre o que está acontecendo.
A 3° geração do k-pop fez de tudo pra alcançar um público, cativar, agradar… e foi exatamente isso que os matou. A influência do ocidente na música coreana permitiu a existência da k-wave, mas sua sobrevivência só é permitida se isso for temporário. Agora as novas gerações, cansados de viver em escombros e sombras, se perguntam: “O que os tornou grandes?” E cabe a eles peneirar cada aspecto para construir algo a partir disso: a revelia, a ganância, mas também o sacrifício, a empatia, a compaixão, tudo isso através do absurdo, a visão artística sem precedentes de comunicar seus anseios, aspirações, quebrar barreiras e regras, alcançar pessoas e um mundo novo.
Find yourself.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025
Idolize-me e eu desejarei ser humanizado
A essa altura você já deve ter imaginado que eu gosto muito de k-pop. Apesar de pra mim ser difícil sempre consumir coisas novas, se tem uma coisa que sempre gostei foi pensar e analisar, mas eu nunca tinha parado pra refletir com profundidade sobre essa arte que eu praticamente respirava.
Isso tudo mudou quando eu conheci o canal Quadro em Branco, que faz vídeos analisando todos os tipos de arte, cinema, quadrinhos e música. Conheci ele por causa dos vídeos sobre Maus, um quadrinho que conta a perspectiva de um sobrevivente do Holocausto, e também vídeos analisando o terror corporal de Junji Ito, coisas certamente desagradáveis mas que esporadicamente despertam minha curiosidade. Por isso que pra mim foi estranho encontrar ele analisando a estrutura e características do k-pop, mas foi ele que me trouxe essa noção de que a indústria não deixa o artista amadurecer, no seu vídeo “O BTS está mudando a indústria”. Eu desejava muito que houvesse mais conteúdo assim, mas como não tem, decidi criar o meu próprio.
O BTS, grupo muito incompreendido pela mídia ocidental, sempre possuiu essa característica “amorfa”, de um camaleão que poderia ser qualquer coisa. Todo mundo que não conhece o BTS tem certos preconceitos contra o grupo ao ponto em que se você mostra uma música ou vídeo eles dizem “isso é BTS?” E você simplesmente tem que olhar nos olhos deles sem saber o que responder porque você também não sabe o que é BTS.
A versatilidade do grupo permitiu que eles explorassem diferentes estilos e sons e esse foi um dos fatores que os levou a encontrar seu mercado musical, além de cultivar um relacionamento de lealdade com os fãs por conseguirem projetar qualquer imagem que quisessem. Não que eles fossem falsos em fazer isso mas simplesmente que navegar pelo espectro das suas personalidades realmente é a especialidade deles e é a sua maneira de se relacionar com as pessoas e o mundo.
No vídeo do Quadro em Branco ele começa falando sobre o anúncio que o grupo fez sobre seu hiato. Na época muita gente não entendeu porque eles estavam chorando e sendo tão dramáticos, mas isso é porque ninguém estava entendendo o que eles estavam dizendo de verdade. Eles literalmente estavam falando como não podiam falar o que queriam, um pensamento fraseado como “nós já esgotamos tudo que tínhamos pra falar”, mas que camuflava a verdade de que eles se adaptaram tanto ao que os fãs esperavam, aquilo que é agradável, bonito e sereno, que eles não conseguiam quebrar essa barreira, como o Quadro em Branco diz até admitir que eles estão cansados soa como uma ingratidão contra o público deles.
Eu falei no exemplo do ILLIT como a indústria pode ser tão controladora que manipula todos os aspectos da arte sem deixar espaço para ela crescer, mas aqui quero trazer outra reflexão que não é só a indústria que está sufocando a arte mas que ser esse camaleão, esse ídolo de uma imagem perfeita, que se adapta à expectativa dos outros, também limita a expressão do artista.
Eu sei por experiência própria o que é estar farto de tentar assumir controle e simplesmente se esvaziar de tudo que você é pra se tornar uma marionete da estrutura em que você vive, e isso pode ser k-pop, trabalho, escola, família, qualquer área da vida. O estranho é que pode parecer que você está se protegendo mas abdicar de sua individualidade e seus sentimentos é morrer, uma morte vazia e teroicamente eterna.
Muito se questiona como vai ser essa volta do BTS como grupo completo porque dependendo do que eles fizerem, e isso é óbvio, a trajetória da carreira deles vai ser mudada daqui pra frente. O maior medo é do tempo vencer e eles serem deixados de lado, algo do qual nem a lealdade do público poderia salvá-los. Essencialmente, todos os olhos estão voltados pra saber se eles vão se deixar morrer dessa forma ou se vão abraçar o caos e se comprometer com todos os excessos do k-pop.
Seria ingenuidade da minha parte dizer que eles nunca exploraram esses aspectos porque eles têm literalmente um álbum sobre essa jornada de autoconhecimento chamado Map of the Soul (ou Mapa da Alma), que aborda muitos tópicos da psicologia Jungiana. A música introdutória, Intro: Persona, escrita pelo líder do grupo RM, poderia facilmente ser o hino do BTS, já começando a com a frase “Quem sou eu? A pergunta pra qual eu não vou encontrar uma resposta por toda minha vida”. E eu encorajo você a ouvir a música antes de continuar lendo pois ela, subconscientemente ou não, fala de todos os conflitos entre a fama e o eu incluindo se sentir como se não merecesse todo o reconhecimento que conquistou.
Aqui a gente tem que entender a diferença entre Persona e Ego, porque a persona é a parte de você que você quer apresentar pro mundo. Ou seja, ele quer ser visto como alguém humilde, desajeitado, imaturo que não sabe o que está fazendo, esse que é ponto da música, por isso ele quer saber quem é, porque se perdeu no papel que criou pra si próprio. A gente pode ver isso nas outras músicas do grupo que, como eu comentei antes, é desprovida de um padrão e o crescimento deles se deve a essa flexibilidade, como se essas diferentes facetas fossem criadas pra aplacar o julgamento das pessoas ao redor. Como eu disse, não que necessariamente isso seja falsidade, mas que simplesmente todos esses lados e todos esses “eus” também são o RM.
Dito isso o que é estranho é que o próprio RM provavelmente sabe exatamente quem ele é, quando ele admite que reconhece sua sombra e que ela o persegue como uma onda de calor. A Sombra, que é a parte de você que foi reprimida voluntária ou involuntariamente, carrega todos aqueles sentimentos negativos que o mundo ao seu redor ensinou que não era apropriado e acabam não tendo espaço na sua identidade por causa da pressão externa. O único problema é que você nunca consegue realmente deixar de ser quem você é, nem fugir dos seus próprios pés.
Agora é a parte do texto em que eu percebo que eu provavelmente estava errado esse tempo todo em achar que o BTS não conhecia a si mesmo, pois o grupo sempre alternou entre sombra e persona com uma sutileza que é quase assustadora, “escondendo” partes da sua sombra na sua arte como um verdadeiro enigma ou mapa do tesouro (ou melhor, mapa da alma), como que realmente desejando serem encontrados.
A questão do por quê o ato de “falar” é tão importante, é porque no início de suas carreiras esse “barulho” contra o sistema era tudo que eles tinham, como uma forma de se extravasar, se libertar e conquistar atenção. Enquanto a trajetória do grupo foi, em grande parte, abandonar a imagem forte e forçada, muito desse barulho permaneceu, agora não necessariamente contra uma estrutura, mas voltado internamente, quase que pra retratar um barulho interno.
Na música Interlude: Shadow, a ambição que vem da sombra é apresentada e ninguém melhor pra falar sobre isso do que a pessoa que sempre foi mais sincera sobre suas ambições: SUGA. “Eu quero ser um rapstar, eu quero estar no topo”, são as coisas que ele começa nos contando depois dessa imagem de um espelho se reconstituindo, uma introspecção que revela um medo desses impulsos obscuros que crescem mais a medida que se vai mais longe. Mais fama, mais alto e com certeza: mais medo de cair, mas sem nunca abandonar a vontade por ainda mais, sem poder ignorar essa sede que desce ardendo.
Só tem um pequeno probleminha: ambição não é a sombra. A ambição, as conquistas, os prêmios, os números, a fama, o sucesso, os objetos de luxo são todos formas de compensar uma inadequação interna. Se esses seus impulsos reprimidos não são aceitos, você se sente mais sozinho, mais isolado e é consumido por um verdadeiro desespero, desespero pra ser ouvido e pra conseguir afirmação externa sobre a sua identidade.
Até que ponto você iria para ser amado? Moldaria uma mentira bonita? Se apagaria pra se tornar um boneco? O BTS criou todas essas obrigações para com seus fãs mas a dualidade que eu não entendo é como tanto o BTS se dobra pra agradar o Army (seus fãs) quanto o Army se dobra pra agradar o BTS, porque eles só estão presos na suas obrigações para com os fãs porque eles acreditam que os fãs tem obrigação para com eles. Até atrás dos seus sentimentos de gratidão estão possessividade e ganância e esse que é o problema real: eles são copos quase transbordando de sentimentos explosivos mas se recusam a aceitar essa sombra de si mesmos.
E não é como se eles pudessem se rebelar e culpar o motivo do seu silêncio nos fãs e na indústria porque eles também manipularam a indústria. O Army não deve desculpas simplesmente porque agem como o próprio BTS cativou o seu público pra ser, a ironia de cultivar certos perfis e atitudes na sua platéia e depois ficar confuso com as ações dela.
A verdade é que só se consegue realmente aproveitar o BTS se você não for fã deles. O Army vai endeusá-los independente do que eles fizerem, algo que eles juram que é amor e lealdade mas honestamente é o aspecto mais antiprofissional do k-pop. O artista quer aprovação, quer ser um ídolo e praticamente condiciona o seu público a tratá-lo assim e depois vem o paradoxo de que ele gostaria de ser tratado diferente. É a inconsistência absurda: idolize-me e desejarei ser humanizado, humanize-me e desejarei ser idolizado.
O que realmente me preocupa é como isso é agravado pelo público do k-pop que parece completamente alienado desses processos, tão acostumados com a ideia de “conceito” que quando os artistas lhe contam histórias absurdas, não sabem de onde aquilo vêm nem refletem sobre o que significa. São atingidos pela letra, pela melodia, pela performance mas completamente alheios à todas as sutilezas, realmente acreditando que tudo isso é apenas um teatro pra eles.
Todo mundo é louco pra tentar reproduzir a fórmula do BTS e quase ninguém sabe como começar mas é a mesma coisa que fez outros grupos fazerem sucesso: sinceridade e sentimento. Tudo que começou com aquele desespero adolescente mas que a gente carrega pro resto da vida: desespero por pertencer, por ser ouvido, amar e ser amado, preencher o vazio. Agora, é impossível ser sincero se você não se conhece.
Eu passei 17 parágrafos falando sobre o BTS apenas pra ilustrar o meu ponto que todo idol é assim, ou melhor, todo ser humano é assim. Imagine algo dentro de si que seja tão feio, tão desagradável, tão lacerante, que apenas olhar pra isso te faria enlouquecer. Não é só assustador, é lindo. Enlouqueça. Pra melhor ou pra pior, esse é o verdadeiro conhecimento do bem e do mal. Abrace sua sombra com um ar de atrevimento e desejo, sendo fiel a quem você é como se isso fosse sua verdadeira religião. Não acredito que a serpente mentiu para Eva, porque, verdadeiramente, isso é se tornar como Deus: conhecer a luz e as trevas, o amor e o medo.
Ídolo ou humano? Você quer ser um deus? Morda a maçã.
domingo, 23 de fevereiro de 2025
ILLIT, entre claro e escuro: A busca por identidade
Faz 11 anos que eu abandonei esse blog e a minha criatividade de escrever. Parece que quando criança tudo na sua cabeça é mais simples e direto, você sabe exatamente o que gosta e o que quer, mas quando crescemos nos tornamos escravos desses retângulos digitais, peregrinando pelos algoritmos como que procurando por algo, talvez até procurando por nós mesmos.
Sempre fui fascinado por histórias, e nos últimos 6 anos esse interesse foi satisfeito pela minha bolha de preferência, o k-pop. Entre as muitas coisas que encontrei na minha peregrinação, semana passada encontrei um certo número de vídeos curtos falando sobre a apresentação do ILLIT com o JYP em um festival. Pra você que parece que eu falei grego, calma. Eu sei que k-pop é um divisor de águas entre as pessoas, ou você ama ou você odeia, e na verdade entristece ver como todas as nuances artísticas desse estilo se perdem nessa briga.
Na verdade o k-pop pode parecer essa tendência recente entre garotas adolescentes, mas é um gênero se consolidou já há muito tempo, e que vem evoluindo em tamanho e qualidade desde a década de 90, na qual o JYP (Jin-young Park) foi um dos artistas pioneiros da época, e não só artista como um dos produtores que moldou todas as premissas de hoje do k-pop. Ele apostou todas as cartas que tinha na ocidentalização do som e era conhecido por misturar Hip-Hop e R&B nas suas músicas, algo que marcou a virada pro surgimento desse novo gênero tão nacional da Coréia mas ao mesmo tempo moderno e eclético. Mesmo fundando sua própria empresa e gerenciando novos artistas, JYP nunca realmente deixou de fazer música, e em 2020, ele lançou sua música “When We Disco”, que tinha esse som nostálgico e característico da era eurodisco dos anos 80.
Não foi exatamente algo inovador pra época porque outras músicas com pegada mais retrô também foram lançadas, mas essa música tem um caráter especialmente dramático, originalmente um dueto com a Sunmi, solista bem estabelecida na cena e que tem uma qualidade vocal suave mas que carrega esse ar misterioso e quase melancólico. Tendo isso em vista é surpreendente que o JYP tenha escolhido o ILLIT pra cantar essa música com ele no festival. O ILLIT, sendo um grupo que sempre se apresenta com uma identidade mais fofinha e radiante, num primeiro momento não parecia a escolha ideal pra esse tipo de música pois dificilmente essas meninas com seu ar tão vibrante e animado conseguiriam se equiparar ao papel da Sunmi no original.
A princípio, como o festival em questão não tinha tanto peso quanto outros gigantes na Coréia, a escolha parecia ser mais para promover o ILLIT, que tinha acabado de estrear em 2024, e também um necessário encontro das diferentes gerações do k-pop: o futuro com o ILLIT, que são as repercussões e desdobramentos mais recentes do gênero e o passado com o JYP, que foi um dos vanguardistas da cena. O JYP desenvolveu os métodos de treinamento dos artistas, que permite que eles alcancem excelência nas performances, mas em tempos recentes muito se fala sobre essas performances e houveram muitas críticas à artistas que supostamente “não sabiam cantar”. O ILLIT, por não ter passado pelo mesmo rigor técnico que outros grupos, foi pego logo no meio disso, sendo que a Moka recebeu a maior parte dessas críticas.
Na apresentação de When We Disco, logo de cara o grupo realmente parece incompatível com a música, mas a surpresa está no tom vocal de Moka quando ela canta na segunda parte da música, com uma voz quente e sombria, diferente de tudo que o ILLIT apresentou em suas músicas até agora. As partes que se seguem são mais graves e as integrantes cantam com uma qualidade que parece até muito mais misteriosa e dramática do que a voz da Sunmi. Por mais que o resto da performance pareça ter problemas de estabilidade vocal, tanto por parte das meninas quanto por parte do JYP, é impossível não se sentir satisfeito com essas partes mais escuras e hipnóticas da música.
A questão que permanece é: será que a empresa dessas meninas, a HYBE Labels, desenvolveu a voz delas pra um caminho completamente diferente de suas verdadeiras qualidades?
Quando o k-pop começou a chamar a atenção do Brasil, as pessoas reagiam às músicas e aos vídeos com grande confusão. Todas aquelas referências, cores, roupas não faziam sentido para muitos, mas essa era a exata magia que atraiu tantos pra esse mundo, o fato de que por trás daquilo existia um contexto que conectava tudo. Desde que o humano é humano tem uma coisa que sabemos fazer bem: contar histórias, e é assim que surgem os "conceitos" no k-pop. Histórias a gosto, do tipo que você quiser, pra se identificar e decifrar, adicionando profundidade às letras, produções e vídeos.
A aparência de um artista é considerada com cuidado por um empresa, não só por que se trata de uma indústria audiovisual mas também porque isso impacta muito em qual conceito eles podem ou não fazer. Ser escolhido por essas empresas é mais ou menos um jogo de você se encaixar no que eles buscam, pois não importa se você tem talento, afinal o lema do k-pop é criar talentos do zero. Artistas com aparência mais fofa são direcionados para grupo com conceito mais leve e refrescante, encorajados a incorporar papéis de possíveis namorados e namoradas. Enquanto artista com aparência mais matura são direcionados a grupos com temas sedutores e encorajados provocar e flertar com o público, mesmo se isso os deixar desconfortáveis. Ambos os casos, focam na objetificação do idol, nessa indústria em que o artista é o produto.
O conceito de ter um conceito é tão importante na cena que tudo se dobra ao redor dele: maquiagem, cabelo, roupas, dança, voz e até o próprio artista. No grupo Twice, Jihyo possui uma voz mais encorpada que as outras integrantes do grupo mas, principalmente no começo da carreira, buscava apresentar uma voz mais leve e fofa para encaixar com os temas das músicas. E, por mais que fosse líder vocal, sua companheira Nayeon recebia muito mais tempo de tela e linhas nas músicas simplesmente por ser compatível com o tom e imagem desejado pro grupo.
O aespa, na ânsia de ganhar reconhecimento como grupo novato, apostou suas fichas na voz magnética da Winter, fazendo músicas inteiras que favoreciam o tom dela mas negligenciavam o tom das outras integrantes. Esses são só alguns exemplos e é porque estamos falando só de voz, na verdade cada aspecto do produto é manipulado em prol daquilo que vai funcionar com o conceito e agradar mais o público. As empresas cada vez mais passam por cima das preferências e experiências de seus artistas em nome do que acreditam que lhes dará dinheiro, isso dá a impressão de que a exata coisa que tornou o k-pop tão atraente está agora sufocando o seu próprio meio de existência.
Não digo que as meninas do ILLIT estejam sendo forçadas a fazer o que não querem para uma companhia gananciosa e diabólica, mas quero trazer à luz a verdade de que a empresa lançou mão de desenvolver as verdadeiras cores e potenciais dessas artistas em troca do que parecia mais seguro para os executivos. Será que não está na hora do k-pop crescer e confiar nos seus artistas para produzir um conteúdo significativo e pessoal?
Saindo um pouco dos questionamentos sobre a indústria como um todo, o ILLIT foi muito acusado por supostamente copiar o NewJeans em muitos aspectos da produção. Não que seja possível um grupo ter direitos autorais sobre um conceito ou uma sonoridade mas se o problema é originalidade, porque a empresa não explora esses aspectos que o ILLIT já tem inatamente em vez de tentar recriar o sucesso de um grupo que fez sucesso justamente por ser original? Seria inovador esconder em um conceito leve e inocente um aspecto misterioso e magnético que refletisse essas qualidades das integrantes, a própria música delas “Cherish My Love” fala coisas como “você tem 3 segundos pra dizer se me ama ou não” e “seus sentimentos estão em segundo lugar, o que eu decido vem primeiro” que apesar do ar muito fofinho passa essa ideia muito forte de controle, como se elas escondessem uma natureza quase que assustadora e ao mesmo tempo irresistível.
Fazer alterações assim seria sutil mas muito desafiador, seu produtor, o Slow Rabbit, teria realmente que fazer seu dever de casa, mas ele seria ideal pra isso. Apesar que em matéria de conceitos dramáticos ele já produziu verdadeiros fracassos musicais como “LOSER=LOVER” do TXT ele também estava presente naquela fase inicial do BTS, que tinha uma música de aspecto muito mais pessoal e escuro, um desespero adolescente que apelou bem pro público da época.
A pergunta é se as meninas do ILLIT conseguem crescer junto com o conceito, ou melhor, se o conceito vai crescer junto com elas, se adaptando a medida que se desenvolvem. Mas então a pergunta real é se elas vão ter coragem de se aventurar dentro de si mesmas e crescer, e aí a frase que originou o nome do grupo seria seu lema: “I’ll be it” ou “Eu serei isso”, independente do que “isso” possa significar.
No mundo ocidental a gente escuta muito barulho de uma sociedade que prega tanto sobre liberdade e individualidade mas na qual ninguém sabe quem se é de verdade. Todo mundo quer provar algo pros outros e tem verdadeiro pavor de olhar pra dentro de si. Se já é assim em uma sociedade que tem o individualismo tão arraigado na cultura, imagina pra um lugar como a Coréia onde a conformidade e o coletivo são priorizados acima de tudo.
Todo artista tem algo a dizer mas eles praticamente se autocensuram ou são moídos por suas empresas. Se o gênero as vezes parece vazio de significado isso é porque falta coragem pra dizer o que precisa ser dito sem sutileza. O k-pop está à beira de um verdadeiro colapso: ou o público vai se entendiar de ouvir mas não escutar nada, ou os artistas vão divergir de todos os paradigmas do gênero e iniciar uma nova era em que todas as suas cores irão vazar.
Vão conseguir ter coragem pra se encarar no espelho? Vão cultivar expectativas saudáveis entre artistas e fãs? Vão alcançar independência artística dentro de suas empresas? Tudo isso depende de algo que ninguém pode medir, uma rebelião silenciosa e interna mas que é o tipo mais perigoso que existe: Bem-vindo à revolução da alma, anjo caído.
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